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ARTIGO
146 - SUPPLY CHAIN MANAGEMENT
WOOD JR, Thomaz, ZUFFO, Paulo Knörich. Supply chain management. REVISTA ADMINISTRAÇÃO FGV . [on line] 1999.
RESUMO: Nos últimos anos, a economia mundial e
a economia brasileira têm sofrido mudanças importantes. Fusões, aquisições e
alianças estratégicas têm se multiplicado. Parte considerável destas mudanças
relaciona-se com profundas alterações nos sistemas de valores de todos os
segmentos industriais. A busca da competitividade relaciona-se cada vez mais
com a busca do ótimo sistêmico além das fronteiras da empresa. Neste contexto,
a administração logística ganha nova dimensão, envolvendo a integração de todas
as atividades ao longo da cadeia de valores e do sistema de valores, das
matérias-primas ao cliente final. O objetivo deste trabalho é (re)situar a
administração logística no contexto de mudanças, enfatizando a metodologia da
gestão da cadeia de demanda (supply chain management).
PALAVRAS-CHAVE: logística, gestão da cadeia de
demanda, cadeia de valores, sistema de valores.
“AALPD”
(nome fictício) é uma importante empresa brasileira do setor de autopeças.
Empresa familiar fundada na década de 40, cresceu vigorosamente durante os anos
60 e 70, acompanhando o boom da
indústria automobilística.
Sustentada
por uma sólida competência tecnológica e aproveitando oportunidades emergentes,
a “AALPD” passou a internacionalizar suas atividades a partir dos anos 80. Os
passos estratégicos seguiram o padrão usual:
1.
início das atividades de exportação,
2.
abertura de escritórios de representação no exterior,
3.
montagem de uma estrutura de assistência técnica e de distribuição junto aos
principais clientes no exterior e
4.
compra ou construção de fábricas nos principais mercados-alvo.
A
empresa exporta hoje para países da América do Norte, Ásia, Oceania e Europa, a
partir de bases industriais no Cone Sul, Europa Ocidental e Europa Oriental.
Para
acompanhar a estratégia de internacionalização e fazer frente a mudanças no
contexto concorrencial interno, a “AALPD” implementou, a partir dos anos 90, um
amplo programa de mudança organizacional. Este programa incluiu
profissionalização da empresa, criação de unidades estratégicas de negócios e
integração mundial das atividades técnicas e comerciais.
Como
parte do programa de mudança foi implantado, em 1995, o conceito de logística
integrada. O objetivo foi implementar a gestão de toda a cadeia de valores a
partir de uma visão sistêmica da empresa.1 Na prática, a criação de
coordenadorias de logística para cada uma das unidades de negócios significou
aglutinar, em cada uma destas áreas, todas as funções logísticas, desde a
entrada de matérias-primas e suprimentos (a função compras permaneceu
corporativa), passando pelo planejamento e controle de produção, até o controle
de distribuição de produtos acabados.
Uma
vez que a nova estrutura e o modelo de gestão estavam implantados, o passo
seguinte foi rever os processos de trabalho. Foi assim que a “AALPD” chegou ao supply chain management, uma metodologia
baseada na visão sistêmica da empresa e no conceito de cadeia de valores, que
une a estas idéias o que há de mais avançado em termos de ferramentas de
racionalização e sincronização da produção.
Quase
dois anos após o início do projeto, os impactos já são sentidos: drástica
redução de estoques, desativação de armazéns (agora desnecessários), mudanças
na organização do trabalho no chão de fábrica, unificação de atividades de
apoio (manutenção, ferramentarias etc.) e melhor nível de atendimento ao
cliente. Tudo isto resultando em mais eficiência, mais eficácia e menores
custos. O próximo passo é expandir os conceitos para as atividades
internacionais do Grupo “AALPD” e envolver mais diretamente fornecedores e
clientes.
Casos
como o da “AALPD” talvez venham, num futuro próximo, a se constituir em padrão
para empresas brasileiras. Após alguns anos cuidando da casa de máquinas,
reparando as velas e encerando o convés, muitos executivos finalmente se deram
conta de que o barco estava apontado para a direção errada. Faltava-lhes visão
de conjunto. Faltava-lhes também um conjunto de conhecimentos que permitisse
otimizar o todo. O conceito de logística integrada e a metodologia de supply chain management talvez possam
prover respostas a estas questões.
OBJETIVOS
Nos
últimos anos, as economias brasileira e mundial têm sofrido mudanças
importantes. No front interno das
empresas, continuam os esforços por processos mais eficientes e pela adoção de
sistemas de gestão mais modernos. No front
externo, multiplicam-se fusões, aquisições, terceirizações e alianças
estratégicas. A busca da competitividade relaciona-se cada vez mais com a busca
do ótimo sistêmico, dentro e fora das fronteiras da empresa. Parte considerável
destas mudanças relaciona-se com profundas alterações nas cadeias de valores de
todos os segmentos industriais.
Neste
contexto, a administração logística ganha uma nova dimensão, envolvendo a
integração de todas as atividades ao longo da cadeia de valores: da geração de
matérias-primas ao serviço ao cliente final. Deixa de ter um enfoque operacional
para adquirir um caráter estratégico.
Este
trabalho pretende contribuir para o debate em torno do tema. Os objetivos são
os seguintes:
mostrar
como a implementação do conceito de logística integrada deve ser inserido em um
contexto maior de mudanças caracterizado pelo fenômeno da desfronteirização;
construir
um quadro de análise, envolvendo os vários elementos e componentes do sistema
logístico sob a perspectiva estratégica.
Este
artigo está estruturado da seguinte forma:
A
próxima seção trata do pano de fundo. Procuramos construir um quadro
referencial, ressaltando algumas características do ambiente de negócios atual
e analisando, em detalhes, o fenômeno da desfronteirização – quebra de barreiras intra-empresas e entre empresas.
A
seção seguinte introduz o conceito de logística integrada. Buscamos, nessa
parte do trabalho, mostrar a evolução histórica da idéia de logística,
ressaltando como o conceito deixa de ter conteúdo meramente técnico para ganhar
status estratégico.
Introduzimos,
na seção seguinte, a metodologia do supply
chain management. Procuramos, então, mostrar como tal metodologia busca
integrar os vários elos da cadeia produtiva.
Na
seção final, discutimos algumas implicações dos conceitos vistos para a prática
empresarial, para o ensino de administração e para a pesquisa no campo.
Finalizando o trabalho, apresentamos um modelo lógico para tratamento do
conceito de logística, integrando seus elementos genéricos e específicos,
estratégicos e operacionais.
UM NOVO AMBIENTE DE NEGÓCIOS
A
maioria das teorias em Estudos Organizacionais pressupõe organizações como
entidades distintas, com ativos mensuráveis, prédios, estruturas definidas,
mão-de-obra fixa etc.2 Não é bem o que está acontecendo no mundo
real, em que terceirizações, teletrabalho, mão-de-obra temporária, aproximação
com fornecedores, parcerias com clientes e alianças com concorrentes
multiplicam-se. As organizações estão deixando de ser sistemas relativamente
fechados para tornarem-se sistemas cada vez mais abertos. Suas fronteiras estão
se tornando mais permeáveis e, em muitos casos, difíceis de identificar.3
Um
fenômeno que é usualmente ligado ao aparecimento desses novos formatos
organizacionais abertos é o da hipercompetição. A hipercompetição ocorre em um
mundo de dinâmica complexa, no qual os atores interagem em âmbito mundial,
vantagens competitivas são efêmeras e o ciclo de vida de produtos é curto,
instável e, em muitos casos, imprevisível.4 A sobrevivência, neste
contexto de permanente desequilíbrio, torna-se função da capacidade de
interagir associativamente com fornecedores, clientes e concorrentes. Surgem,
assim, as redes organizacionais, formadas com o objetivo de reduzir incertezas
e riscos, organizando atividades econômicas por meio de coordenação e
cooperação entre empresas.5
Na
década de 80, essas redes, ou associações, foram chamadas de alianças
estratégicas.6 Hoje o conceito se modificou. Dess et alli,7 por exemplo,
definem três tipos de estruturas para essas redes, considerados formatos
típicos de organizações sem fronteiras:
estrutura modular: quando a organização mantém as atividades essenciais da
cadeia de valores e terceiriza as atividades de suporte, continuando,
entretanto, a exercer controle sobre elas;
estrutura virtual: relacionada às redes de fornecedores, clientes e/ou
concorrentes, ligadas temporariamente para maximizar competências, reduzir
custos e facilitar o acesso a mercados;
estrutura livre de barreiras: refere-se a definições menos rígidas de funções, papéis e
tarefas dentro da organização.
Desfronteirização organizacional
O
tema da quebra de barreiras entre departamentos e áreas tem se mostrado
recorrente nas publicações sobre gestão empresarial. Essa condição é dada como
imprescindível para criar maior foco no mercado e nos clientes. Apesar de
importante, esse nível do rompimento de fronteiras não é o único no movimento
de transformação que as organizações estão sofrendo. Ashkenas et alli,8 por exemplo,
argumentam que as fronteiras organizacionais estão sendo quebradas em quatro
níveis:
eliminação
das barreiras verticais (redução de
níveis hierárquicos), que implica o achatamento das pirâmides organizacionais;
eliminação
das barreiras horizontais, que leva ao enfraquecimento dos silos departamentais
e da especialização funcional;
eliminação
das barreiras externas, através de parcerias e alianças com fornecedores,
clientes e concorrentes;
eliminação
das barreiras geográficas, com a construção de alianças estratégicas para a
exploração de novos mercados.
Tanto
empresas de serviços como empresas industriais têm experimentado novos arranjos
organizacionais. A nova fábrica de motores da Volkswagen em Rezende (Brasil) é
um caso típico. Na linha de produção dessa unidade, os fornecedores executam
todo o trabalho que seria tradicionalmente de responsabilidade exclusiva da
Volkswagen. O sistema foi batizado de “consórcio modular”, um exemplo extremo
de eliminação de fronteiras externas.
Alianças
como esta que a Volkswagen estabeleceu com alguns dos seus fornecedores têm
tido um crescimento exponencial desde o início da década de 80. É claro que a
convivência entre culturas empresariais distintas nem sempre é fácil, e muitas
alianças falham. Com as alianças, as fronteiras entre empresas são fortemente
reduzidas e o próprio jogo competitivo ganha um novo enfoque. A procura e a
escolha acertada de parceiros passa a ser vital para viabilizar a sobrevivência
e o crescimento das empresas. Configura-se, então, um complicado xadrez
organizacional, que poucos parecem aptos a jogar.
Todas
essas frentes de transformação têm enorme impacto sobre as organizações. A
atividade de gestão ganha novos contornos. A separação entre empresa e ambiente
passa a ser delimitada por uma tênue linha divisória, incerta e mutável. Muitas
vezes, a empresa se confunde com o ambiente, misturando-se com fornecedores e
clientes. Fica difícil saber onde termina a cooperação e começa a concorrência.
Diante
deste quadro de mudanças, algumas questões devem ser colocadas:9
Como
repensar categorias como estrutura, estratégia, tecnologia, comunicação e até
mesmo o conceito de organização?
Que
estrutura organizacional adotar?
Como
coordenar o trabalho?
Que
tipo de perfil deverão ter os colaboradores?
E
a cultura organizacional? Essas novas organizações rituais terão valores
compartilhados e cultura própria?
Enfim,
como deve ser pensada a gestão logística em um quadro tão fortemente
fragmentado?
Talvez
seja até mais adequado repensar as questões, já que as categorias nelas
mencionadas foram criadas para um modelo de organização em declínio.
Especificamente
quanto ao conceito de logística, se a tendência de desfronteirização é realmente importante, então é
necessário repensar completamente o conceito. Em organizações sem fronteiras –
ou com fronteiras muito tênues –, a logística passa a ser uma função muito
mais relacional e estratégica do que em organizações mais tradicionais.
LOGÍSTICA INTEGRADA
Diferentes
autores atribuem diferentes origens à palavra logística. Alguns afirmam que ela
vem do verbo francês loger (acomodar,
alojar). Outros dizem que ela é derivada da palavra grega logos (razão) e que significa “a arte de calcular” ou “a
manipulação dos detalhes de uma operação”.
Uma
das definições mais divulgadas, apesar de relativamente restrita, é a do
Council of Logistics Management, dos Estados Unidos, segundo a qual logística é
“[...] o processo de planejar,
implementar e controlar eficientemente, ao custo correto, o fluxo e armazenagem
de matérias-primas, estoques durante a produção e produtos acabados, e as
informações relativas a estas atividades, desde o ponto de origem até o ponto
de consumo, com o propósito de atender aos requisitos do cliente”.
No
seu emprego nas empresas, a logística tem ganho diferentes definições,
correspondendo a uma crescente amplitude de escopo, experimentada ao longo do
tempo. O Quadro 1 mostra a evolução histórica do conceito de logística.
É
importante notar que, ao mesmo tempo em que a função logística é enriquecida em
atividades, ela também deixa de ter uma característica meramente técnica e
operacional, ganhando conteúdo estratégico.
Isso
pode ser percebido na segunda fase do Quadro 1, quando a função logística passa
a englobar processos de negócios fundamentais para a competitividade
empresarial. A estrutura integrada de logística passa, nesta fase, a orquestrar toda a cadeia de abastecimento, da
entrada de matérias-primas até a entrega do produto final.
Mas
o conteúdo estratégico só fica patente na terceira e quarta fases, nas quais a
participação da função logística nas mais importantes decisões empresariais é
ressaltada. É o caso das alianças estratégicas, das parcerias e dos consórcios
logísticos.
A
definição do Council of Logistics Management é uma boa declaração de intenções,
pois menciona a integração de todas as funções, ressalta o foco no cliente e,
indiretamente, transmite uma visão sistêmica. Além disso, a tendência histórica
aponta para o enriquecimento da função logística. Infelizmente, na prática de
muitas empresas, a teoria parece ser outra.
Quadro
1 – Evolução do conceito de logística
|
|
Fase zero |
Primeira fase |
Segunda fase |
Terceira fase |
Quarta fase |
|
Perspectiva dominante |
administração
de materiais |
administração
de materiais + distribuição |
logística
integrada |
supply chain management |
supply chain management |
|
Focos |
gestão
de estoques gestão
de compras movimentação
de materiais |
otimização
do sistema de transporte |
visão
sistêmica da empresa integração
por sistema de informações |
visão
sistêmica da empresa, incluindo fornecedores e canais de distribuição |
amplo
uso de alianças estratégicas, co-makership,
subcontratação e canais alternativos de distribuição |
Consultas
informais realizadas por um dos autores com alunos de pós-graduação exercendo
cargos executivos (inclusive em logística) mostrou que, entre as empresas
brasileiras pesquisadas (cerca de 150), a quase totalidade encontra-se ainda
entre as fases zero e primeira descritas no Quadro 1. De fato, não é incomum
encontrar empresas que ainda não despertaram nem mesmo para a importância de
controlar e reduzir estoques. Poucas são as que já implementaram o conceito de
logística integrada (segunda fase) e raras as que iniciaram implantações do tipo
supply chain management (terceira
fase) ou efficient consumer response
(quarta fase). O retrato revelado por estas consultas mostra o quanto ainda
precisamos evoluir no campo da logística e da competitividade.
A
Figura 1 mostra as dez funções essenciais da logística. Estas funções devem ser
integradas à estratégia empresarial e orientadas para o atendimento às
necessidades do cliente.
Figura 1 – Funções essenciais da
logística11
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|
Qual o melhor sistema de distribuição? |
|
A gestão de estoques é adequada à demanda de
serviços? |
|
Existem oportunidades de otimização no sistema
de transporte? |
|
A distribuição de recursos está otimizada? |
|
Como definir e implementar mudanças? |
|
Como melhorar o
desempenho do sistema? |
|
Como definir e implementar
mudanças? |
|
Quais as melhores
tecnologias/metodologias? |
|
Como atingir a integração
do canal? |
![]() |
As
atividades da função logística integrada podem ainda ser decompostas em três
grandes grupos:
atividades estratégicas: estas atividades relacionam-se às decisões e à gestão
estratégica da própria empresa. A função logística deve participar de decisões
sobre serviços, produtos, mercados, alianças, investimentos, alocação de
recursos etc;
atividades táticas: estas atividades relacionam-se ao desdobramento das metas
estratégicas e ao planejamento do sistema logístico. Envolvem decisões sobre
fornecedores, sistemas de controle de produção, rede de distribuição,
subcontratação de serviços etc;
atividades operacionais: estas atividades relacionam-se à gestão do dia-a-dia da
rede logística. Envolvem a manutenção e melhoria do sistema, solução de
problemas etc.
SUPPLY
CHAIN MANAGEMENT
Na
montagem de um sistema complexo como o da fábrica da Volkswagen em Rezende
(Brasil), um fator fundamental é o projeto da cadeia logística. Embora o
experimento de Rezende seja (ainda)
um caso extremo, muitas empresas estão experimentando níveis de complexidade
comparáveis. Não é por acaso o crescente interesse pelo supply chain management.
Outra
razão para a popularidade do tema é a crescente consciência da ineficiência das
cadeias de valores. Se o movimento da qualidade chamou a atenção para as perdas
relacionadas a retrabalhos e refugos na produção, o novo foco na gestão
logística mostra como a ineficiência é ainda maior quando olhamos a cadeia como
um todo. Não basta o fabricante ter buscado a excelência operacional se os
distribuidores, os atacadistas e os varejistas continuam operando em condições
precárias. Diante do consumidor final, o produto – e/ou serviço – será
penalizado pela ineficiência sistêmica da cadeia.
Em
linhas gerais, o supply chain management pode
ser definido como uma metodologia desenvolvida para alinhar todas as atividades
de produção de forma sincronizada, visando a reduzir custos, minimizar ciclos e
maximizar o valor percebido pelo cliente final por meio do rompimento das
barreiras entre departamentos e áreas.
Trata-se
de uma metodologia empregada principalmente por empresas de consultoria para
implantação do conceito de logística integrada, envolvendo a adoção de práticas
de global sourcing, parcerias com
fornecedores, sincronização da produção, redução de estoques em toda a cadeia,
revisão do sistema de distribuição, melhoria do sistema de informação, melhoria
da previsão de vendas etc.
Projetos
deste tipo costumam focalizar preferencialmente a busca de melhor performance dentro da empresa, embora a
tendência natural seja a de avançar as fronteiras, aproximando fornecedores e
clientes.
Poirier
& Reiter12 consideram o supply
chain management um sistema que envolve todos os elementos de uma cadeia de
produção, do fornecedor de matéria-prima até a entrega do produto (ou serviço)
pelo comércio varejista (ou pela empresa prestadora de serviços) ao consumidor
final, visando à otimização da cadeia de valores como um todo (ver Figura 2).
Essa
idéia é derivada da premissa segundo a qual a cooperação entre os membros da
cadeia de valores reduzirá os riscos individuais e poderá, potencialmente,
melhorar a eficiência do processo logístico, eliminando perdas e esforços
desnecessários.13
Uma
conseqüência imediata da aplicação da metodologia para o jogo competitivo é que
a competição não se dará apenas entre empresas, mas também entre sistemas de
valores.
Figura 2 – Modelo supply chain
FLUXO DE PRODUTOS E/OU SERVIÇOS
![]()
CONSUMIDORES FORNECEDORES DISTRIBUIDORES

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FLUXO DE INFORMAÇÕES |
![]() |
![]() |
![]()
IMPLICAÇÕES
Os
conceitos e idéias discutidos neste trabalho permitem algumas especulações
sobre impactos para a prática empresarial, para o ensino de administração e
para a pesquisa no campo da logística.
Implicações para a prática
empresarial
Embora
movimentos recentes de mudança tenham contribuído para acentuar o foco no
cliente e cultivar a visão da
organização como coleção de processos, a maioria das empresas ainda tem
estruturas pouco integradas quanto ao aspecto logístico.
A
configuração estrutural predominante em empresas brasileiras caracteriza-se
pela segregação dos subsistemas básicos da atividade logística. As áreas de
suprimentos, planejamento e controle de produção e distribuição costumam estar
ligadas a diferentes gerências ou departamentos. Isso não seria grave se
houvesse sistemas e processos integrando estas atividades, o que infelizmente
também não ocorre com freqüência.
Acreditamos
que as reflexões expostas neste trabalho levem às seguintes implicações para a
prática empresarial:
adoção
do conceito de logística integrada, pela integração via estrutura
organizacional ou via processos de trabalho;
adoção
de uma perspectiva mais estratégica da função logística, resultando em maior
envolvimento com as grandes decisões da empresa (alianças estratégicas,
parcerias com clientes e fornecedores etc.).
Implicações para o ensino da
Administração
Programas
de graduação, pós-graduação e especialização em Administração de Empresas no
Brasil mantêm cursos ligados ao tema da logística. A organização e o conteúdo
destes cursos, entretanto, são geralmente marcados pela fragmentação e falta de
visão sistêmica. Dá-se excessiva ênfase para questões técnicas e operacionais,
privilegiando-se temas como gestão de estoques, movimentação de materiais e
armazenagem. Questões importantes como a integração das várias atividades
logísticas e a integração entre os processos logísticos e os processos de
mercado são tratadas apenas superficialmente.
A
adoção da visão expressa por este trabalho implica uma maior valorização dos
aspectos estratégicos e dos processos decisórios, em detrimento dos aspectos
técnicos e operacionais. Estes devem ser subordinados aos primeiros. A
conseqüência direta seria uma profunda reforma dos cursos para adequá-los à
nova realidade empresarial.
Implicações para a pesquisa no
campo
O
aparecimento de trabalhos sobre logística integrada e supply chain management são ainda raros, tanto no Brasil como no
exterior. A maioria dos trabalhos na área aprofunda temas específicos como
otimização de transportes, gestão globalizada de compras etc. Um exame das
apresentações realizadas por especialistas e executivos de empresas em
seminário recente sobre o tema, promovido em São Paulo (Brasil), é revelador.
De dezesseis palestras, apenas duas trataram realmente do tema supply chain management. Todas as demais
abordavam questões específicas de uma ou outra sub-área da função logística.
Seria
desejável a abertura de linhas de pesquisa que adotassem uma visão mais
administrativa da questão logística.
Se concordarmos com as evidências empíricas e admitirmos a crescente relevância
do fenômeno da desfronteirização, a condução da gestão logística deve mudar
profundamente.
O
foco deixa de ser exclusivamente interno (voltado para dentro da empresa) e
técnico (voltado para a otimização operacional) e passa a ser externo (voltado
para fornecedores, clientes e concorrentes) e estratégico (voltado para a busca
de soluções sistêmicas criativas). O locus
de realização de pesquisas deve, portanto, mudar.
COMENTÁRIOS FINAIS
A
trajetória realizada neste trabalho mostra como o conceito de logística ganha
nova dimensão e relevância diante de mudanças estruturais no contexto competitivo.
Como
contribuição final, é apresentada, na Figura 3, uma estrutura lógica para
tratamento do tema. Nesta figura, procuramos incluir desde os elementos
contextuais – fenômenos como a desfronteirização e as alianças estratégicas – até os aspectos mais operacionais da
logística – controle de estoques, programação de produção etc.
Analisando
a Figura 3 a partir do topo, temos os seguintes elementos:
primeiro,
o novo contexto empresarial, que tem impacto direto sobre a cadeia de valores,
fragmentando-a e exigindo do administrador uma visão mais ampla e sistêmica do
objeto a ser administrado. A partir
desta nova realidade é que deve ser pensada a gestão logística;
em
seguida, a própria gestão logística, com todos os seus subsistemas –
suprimentos, produção e distribuição. Todos estes elementos devem estar
cuidadosamente integrados por um sistema de informações único;
finalmente,
os componentes estratégicos, representados pelo direcionamento estratégico,
pelas competências essenciais e pelos fatores críticos de sucesso. A função
deste elemento é ressaltar o fato de que qualquer otimização logística deve
estar alinhada com a estratégia empresarial. Assim como esforços pontuais não
levam necessariamente a ganhos no sistema, energias empregadas na direção errada
não contribuem para o sucesso organizacional.
O
tema supply chain management parece
ganhar especial relevância no contexto da integração das empresas operando no
mercado do continente americano. Esperamos que este trabalho represente um
estímulo a pesquisadores interessados neste campo de estudo.
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· cadeia de distribuição
·
canais de distribuição
·
tipos de transporte
|
ALIANÇAS |
|
METAS ESTRATÉGICAS GESTÃO ESTRATÉGICA
|
|
SUBSISTEMA DE INFORMAÇÕES |
![]() |
DESTAQUES
A
hipercompetição ocorre em um mundo de dinâmica complexa, no qual os atores
interagem, vantagens competitivas são efêmeras e o ciclo de vida de produtos é
curto, instável e, em muitos casos, imprevisível.
No
novo cenário competitivo, muitas vezes a empresa se confunde com o ambiente,
misturando-se com fornecedores e clientes. Fica difícil saber onde termina a
cooperação e começa a concorrência.
A
configuração estrutural predominante em empresas brasileiras caracteriza-se
pela segregação dos subsistemas básicos da atividade logístico.
E-mail:
twood@fgvsp.br
Paulo Knörich Zuffo
Engenheiro
pela Escola Politécnica/USP e Mestrando em Administração da Produção na
EAESP/FGV.
*
Este trabalho faz parte de pesquisa financiada pelo NPP-Núcleo de Publicações e
Pesquisas da EAESP/FGV. Uma versão preliminar deste trabalho foi apresentada no
21o ENANPAD. Ver WOOD JR., T., ZUFFO, P. K. Supply chain management: uma abordagem
estratégica para a logística. Anais do 21o ENANPAD. Rio das
Pedras, Brasil, 1997. Utilizamos aqui o termo original em inglês. Em português,
as seguintes traduções têm sido utilizadas: “Gestão da Cadeia de Suprimentos”,
“Gerenciamento da Rede de Suprimentos” e “Gestão da Cadeia de Demanda”.
1.
Cadeia de valores é o conjunto de atividades de uma empresa que agregam valor,
desde a entrada de matérias-primas até a distribuição de produtos acabados. O
conceito pode também ser pensado de forma mais ampla, incluindo os fornecedores
da empresa, os fornecedores dos fornecedores, os vários elos da cadeia de
distribuição, parceiros, subcontratados etc. Fala-se ainda hoje em cadeia
virtual de valores, um fluxo de informações que corre paralelamente à cadeia
física de valores e que deve ser utilizado para a otimização desta última. Ver
PORTER, M. Vantagem competitiva. Rio
de Janeiro: Campus, 1990.
2.
THORNTON, P. H., TUMA, N. B. The problem
of boundaries in contemporary research on organizations. Vancouver: Academy
of Management Best Papers Proceedings, 1995.
3.
STRATI, A. Aesthetics and organizations without walls. Studies in Culture, Organizations and Societies, v.1, n.1,
p.83-105, 1995.
4.
D’AVENI, R. A. Coping with hypercompetition: utilizing the new 7S's framework. Academy of Management Executive, v.9,
n.3, p.45-60, 1995.
5.
GRANDORI, A., SODA, G. Inter-firm networks: antecedents, mechanisms and forms. Organization Studies, v.16, n.2,
183-214, 1995.
6.
Ver LAZO, R. Alianças estratégicas: quando e como aliar-se a concorrência.
(Dissertação de Mestrado.) EAESP/FGV, 1992.
7.
DESS, G. G. et alli. The new
corporate architecture. Academy of
Management Executive, v.9, n.3, p.7-20, 1995.
8.
ASHKENAS et alli. The boundaryless organization: breaking
the chains of organizational structure. San Francisco: Jossey-Bass, 1995.
9.
CLANCY, T. The virtual corporation, telecommuting and the concept of team. Academy of Management Executive, v.8,
n.2, p.7-10, 1995.
10.
Efficient consumer response (resposta
eficiente ao consumidor): trata-se de um conjunto de metodologias empregadas
principalmente por empresas de consultoria, cuja aplicação visa a quebrar as
barreiras entre parceiros comerciais. Estas barreiras costumam resultar em
ineficiências, com impacto em custos e tempo de resposta ao consumidor.
Projetos deste tipo envolvem a criação de um consórcio de empresas industriais
e comerciais que busquem, através da análise do sistema de valores, realizar
otimizações. Iniciativas deste tipo no Brasil têm, até o momento, esbarrado em
resistências culturais e na característica conflituosa do relacionamento entre
os elos dos sistemas de valores.
11.
Adaptado de Andersen Consulting, Arthur Andersen & Co. In: CHRISTOPHER, M. Logística e gerenciamento da cadeia de
suprimentos. São Paulo: Pioneira, 1997. p.224.
12.
POIRIER, C. C., REITER, S. E. Supply
chain optimization. San Francisco: Berret-Koehler, 1996.
13.
BOWERSOX, D. J., CLOSS, D. J. Logistical
management. s.l., McGraw Hill, 1996.