ARTIGO 368 -UM INSTANTE DE REFLEXÃO SOBRE O HOMEM E O TRABALHO

ARTIGO 368 -UM INSTANTE DE REFLEXÃO SOBRE O HOMEM E O TRABALHO

 

CORREIA, Angela de Castro. Um Instante De Reflexão Sobre O Homem E O Trabalho. CADERNO DE PESQUISAS EM ADMINISTRAÇÃO, SÃO PAULO, V. 1, Nº 11, 1º TRIM./2000.

 

 

RESUMO: Este texto faz uma reflexão sobre a importância do trabalho na vida do homem, a partir de uma análise do próprio significado do trabalho e das necessidades elementares básicas, tanto para os seres humanos como para os animais irracionais, para que possam sobreviver. Em seguida, é abordado o impacto da modernização tecnológica sobre o trabalho, o que leva as organizações a buscarem menos pessoas e com mais qualidades para atuarem em seu ambiente de tarefa. É feita uma consideração sobre a divisão do trabalho e a influência desta na vida do trabalhador, principalmente operário e o retorno que esta traz ao capitalista. E, finalizando, é abordada a importância da qualidade de vida no trabalho, sendo esta um fator considerado de grande importância para que a organização mantenha um quadro mais sadio fisicamente e, por sua vez, mais produtivo.

 

PALAVRAS-CHAVE:  Trabalho,

 

 

UM INSTANTE DE REFLEXÃO SOBRE O HOMEM E O TRABALHO

 

 

1. INTRODUÇÃO

O objeto ora em estudo é de grande importância na vida do ser humano, pois se trata do trabalho e sua relação com o homem. A análise será tanto em seu sentido abstrato, quando há dispêndio de energia pelo sujeito em diferentes atividades, como também em seu sentido concreto, ao fazer referência à própria utilidade da mercadoria produzida, mercadoria esta que terá um valor conforme a qualidade do trabalho humano aplicado em sua elaboração. A relação entre o homem e o trabalho se dá desde o início da existência daquele. Contudo, com a necessidade de acúmulo de capital por parte do contratante da força de trabalho e com a evolução de fatores tecnológicos, as formas de manuseio de bens de transformação foram se modificando e a quantidade da força de trabalho necessária, diminuindo, ao mesmo tempo em que novas máquinas e equipamentos foram sendo criados, processando-se as matérias-primas com muito mais rapidez e em maior quantidade que aquela gerada somente pela força orgânica do homem. Para agilizar ainda mais o processo de fabricação, as organizações, principalmente as indústrias, vêm se utilizando da divisão do trabalho. E essa divisão do trabalho em pequenas tarefas faz com que cada operador se torne altamente especializado e produza muito mais e com maior eficiência. No entanto, para

que o sujeito desempenhe bem suas atividades, é imprescindível que o clima organizacional, ou seja, o bem estar psicológico dos membros envolvidos no ambiente de tarefa das organizações, seja também considerado como fator responsável pelo aumento da produtividade e harmonia interna. Considerando, então, a influência do trabalho na

vida do ser humano, assim como as transformações ocorridas no mercado de trabalho, em decorrência tanto das novas tecnologias como da divisão de tarefas, sem excluir a importância de aspectos ambientais favorecedores de um maior desempenho por parte dos membros de uma organização, é que se  fará, aqui, uma análise de quatro variáveis influentes no trabalho – tecnologia, divisão do trabalho, clima organizacional e qualidade de vida no trabalho (QVT) – podendo estas

influenciarem tanto positiva como negativamente a vida profissional do trabalhador.

Para fazer esta análise sobre o mundo do trabalho foram coletadas informações de diversos artigos relacionados sobre o assunto, contidos em renomadas revistas periódicas na área de Administração como a Revista de Administração de Empresas, Revista de Administração Pública e Revista de Administração, assim como obras de diversos autores como

BRAVERMAN (1987) que analisa os processos de trabalho da sociedade capitalista e sua forma de constituição e a relação daqueles com as ocupações, e outros assuntos como trabalho, gerência, estrutura da classe trabalhadora etc.; CASTEL (1998) traça a história da construção da sociedade salarial moderna, fazendo uma referência aos pobres, vagabundos,

miseráveis estrangeiros, desempregados etc., vendo a questão social como implicadora da crise da sociedade salarial, onde o capitalismo está agindo cada vez mais em seu papel de exclusão do sujeito assalariado; BRIDGES (1995) trata do desaparecimento dos empregos e do surgimento das novas formas de trabalho e sugere ao indivíduo a criação de seu próprio

emprego, ou seja, ver-se como uma empresa; CATTANI (1997) coordenou o dicionário crítico que apresenta vários conceitos de 50 verbetes ligados ao mundo do trabalho, como condições de vida, tecnologia, identidade do trabalhador e de mudanças no mundo  capitalista; RIFKIN (1995) destaca o fim dos empregos e o crescente aumento do subemprego e o

impacto na tecnologia no trabalho, reduzindo os cargos nas organizações e demonstra sua descrença no retreinamento, sugerindo um maior investimento no terceiro setor emergente de atividades comunitárias; FAUSTO (1986) aborda a história do movimento operário entre a última década do século XIX e 1920, principalmente em relação à classe operária de Rio de

Janeiro e São Paulo, envolvendo assuntos como greves, sindicatos e políticas; GORZ (1996) trata da divisão do trabalho como forma de alienação e de destruição do laborioso e a negação da sua liberdade, por parte do capitalista, tendo pesquisado estudiosos no assunto para a análise; RODRIGUES (1991) aborda problemas comportamentais da organização relacionados com as atuais necessidades do trabalhador, no novo contexto organizacional, enfatizando a qualidade de vida no trabalho.

2. SIGNIFICADO DO TRABALHO

Nos seres, racionais e irracionais, o instinto de sobrevivência, que é a disposição natural e ingênita para se permanecer vivo, é fator perceptivo desde quando o homem e os outros animais evoluíram em suas espécies. E as necessidades primárias –

fisiológicas e de segurança – estudadas por Maslow 1 que englobam as necessidades de procriar, comer, beber, ter abrigo, dormir, ter segurança física etc., inerentes ao homem, também se aplicam aos outros animais.

Os homens e os animais irracionais despendem energias para suprir suas carências mais elementares, mas para o animal irracional esse instinto se concretiza e tem um fim em si mesmo, até que sintam novamente as mesmas necessidades. Já para o homem estas necessidades vão além de somente um suprimento físico. Também são necessárias a satisfação do ego, da

auto-estima, de realização profissional etc., inerentes às necessidades secundárias – sociais, estima e auto-realização.

É com o trabalho remunerado, seja ele formal ou informal, que o sujeito consegue suprir suas necessidades.

O trabalho, segundo BRAVERMAN (1987), não é apoderar-se de materiais da natureza, tais como esta oferece, e sim alterar este estado natural e melhorar sua utilidade. O que distingue o homem do animal irracional, é que o homem pensa, idealiza e produz e o resultado provém da imaginação, o que não ocorre com os outros animais. O homem “imprime ao material o projeto que tinha conscientemente em mira” (p.49).1 Abraham H. Maslow (1908-1970), foi um dos

maiores conhecedores da motivação humana. Portanto, o homem tem um propósito, enquanto os outros animais agem pelo instinto. Partindo desses pressupostos, pode-se entender o trabalho como um dispêndio – físico e mental pelo

homem, físico pelos animais, ou mecânico pelas máquinas. Esse trabalho, quando se refere aos homens e às máquinas e indiretamente a determinados animais, manipulados pelo homem, visa produzir os próprios bens e serviços utilitários e necessários à própria reprodução e manutenção da espécie humana. O trabalho é, portanto, a ação ou o resultado de

determinado esforço, realizado pelo homem. E a ação da força de trabalho também é percebida como capacidade de trabalho, que na sociedade do capitalismo é tida como mais uma mercadoria que é comprada e vendida, numa transação entre o trabalhador – possuidor da força de trabalho – e o capitalista – o detentor do capital.

A distinção entre trabalho regulado e trabalho forçado é feita por CASTEL (1998, p.170), que salienta que os dois conceitos são representativos das duas principais modalidades da organização do trabalho antes da revolução industrial, onde a primeira compreende “o conjunto das regulamentações dos ofícios, ao mesmo tempo os ofícios jurados e os ofícios

regidos pelas regulamentações municipais” e a segunda corresponde, assim como a primeira, ao uso da coerção, permitindo a acumulação de riquezas ao mercador e a dependência do produtor para com aquele, tendo o trabalho livre grandes dificuldades de “construir um lugar para si”.

O sujeito pode realizar seu trabalho tanto por meio de contrato como por conta própria, comercializando diretamente com o consumidor o produto final conseqüente de seus atos, podendo este ser uma mercadoria e/ou um serviço. Esta relação já vem sendo observada desde os primórdios da Revolução Industrial, onde as famílias se reuniam para executar

determinada atividade, na maior parte das vezes, envolvendo todos os membros domésticos, onde nem mesmo as crianças ficavam de fora. No entanto, quando o trabalhador opta por vender/negociar seus produtos/serviços a entidades

organizadas mediante contrato, inicia-se aí um processo chamado de “trabalho industrial a domicílio” (CATTANI, 1997, p. 275), onde o sujeito detentor da força de trabalho terá que satisfazer às exigências de quantidade, prazo, especificação do produto e valor estipulado, já que não estará mais negociando o produto resultante de seu esforço quando quiser e a

qual consumidor interessar, mas sim ao contratante seus serviços, que irá remunerá-lo pelo que foi estipulado contratualmente. Pode-se presumir, portanto, que a força de trabalho de um sujeito pode ser vendida diretamente ao capitalista, que irá comercializar os produtos produzidos, ou pode ser aplicada para desenvolver produtos que serão negociados diretamente com o consumidor ou de forma contratual, onde terceiros transformarão o resultado da ação do sujeito em objeto de comércio. E essa inter-relação proveniente da compra e venda da força de trabalho irá estruturar o

nível sócio-pessoal de cada indivíduo em dada sociedade, ou seja, quanto ganha, como se diverte, os horários que cumpre no trabalho, o lugar onde executa suas atividades, com quem se relaciona, a qual família pertence, sua satisfação com o trabalho que executa e com os colegas de profissão, chefias etc., as normas que cumpre, as recompensas que recebe, direitos e deveres etc.. O trabalho identifica, portanto, o indivíduo na sociedade a qual pertence.

3. IMPACTO DA MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGICA NO TRABALHO

As organizações, em especial as do ramo industrial, estão cada vez mais buscando automatizar seu ambiente de tarefa. Buscam novas tecnologias que viabilizem um processo rápido e eficiente de produção e maior produtividade. Em decorrência das constantes necessidades de inovação surgiram várias técnicas e programas, principalmente oriundos do Japão como o Círculo de Controle de Qualidade, Kanbam, Programa 5S etc., com o intuito de implantar inovações no

processo de trabalho e na produção. Ao procurarem a modernização de seu maquinário, as organizações estão afetando diretamente sua força de trabalho que, ou será treinada para utilizar os novos equipamentos ou será descartada pela impossibilidade de mantê-la ociosa. As novas tecnologias estão, assim, constantemente afetando o ser humano que, ou ficará sem trabalho e buscará novas formas de sobrevivência, ou verá esse mesmo trabalho sendo intensificado pela

necessidade de novos conhecimentos e novas práticas decorrentes das “transformações no conteúdo do trabalho” (CATTANI, 1997, p.172). Esse impacto das novas tecnologias afeta não só o indivíduo enquanto trabalhador e detentor da força de trabalho, mas como pessoa, com sentimentos, emoções, diretamente ligadas à determinada função ou atividade com as quais se identifica.

Segundo GONÇALVES (1993, p.109), a tecnologia serve como um espelho e uma metáfora: “as pessoas são usuárias das ferramentas e construtoras dessas ferramentas, sem deixarem de ser artífices”, ou seja, o homem se utiliza de bens produzidos por ele próprio, que por sua vez serão utilizados na elaboração de produtos ou serviços, sem deixar de ser operário. Já que o homem se utiliza dos próprios bens que cria, é possível se analisar uma outra variável relacionada ao

seu trabalho que é a sua criatividade. Tanto os recursos tecnológicos como outros recursos materiais facilitam

o processo de produção e a integração de idéias novas, desde que a organização onde o trabalhador está inserido capacite-o e lhe dê subsídios para tal fim. Para o capitalista, o trabalhador é visto como uma máquina e BRAVERMAN (1987, p.157) ressalta esta afirmativa ao escrever que há “o deslocamento do trabalho como o elemento subjetivo do processo do

trabalho e a transformação num objeto”. E isso se percebe claramente quando, na produção em série, cada operação do trabalho de um operário, ao ser reduzida ao menor movimento, se compara aos movimentos padronizados, repetitivos e rotineiros de uma máquina. É o “controle do processo de trabalho sobre massas de homens”, como bem diz BRAVERMAN (1987, p.167).

Desde 1950 que a indústria vem passando por processo de reestruturação em suas operações e evoluindo em direção à fábrica sem trabalhadores, onde novas tecnologias dispensam a força de trabalho humana e trabalham ininterruptamente. E afetando diretamente os empregos, a tecnologia provoca mudanças na execução do trabalho em si e BRIDGES

(1995) salienta que os efeitos podem ser observados em três grupos: informatizando o ambiente de trabalho,

que é quando ocorre um processo de informatização no ambiente de trabalho, agilizando os processos e utilizando menos pessoas e menor tempo; o negócio dos dados, que se refere à velocidade com que as informações são processadas, principalmente por meio do computador, dispensando um grande número de mão-de-obra e fazendo com que a que permanecer desenvolva seu trabalho com menor esforço físico e mental; e a tecnologia das comunicações como

multiplicadora, fazendo com que as informações cheguem a diferentes lugares, afetando dessemelhantes

pessoas e países, provocando mudanças que podem ser sentidas e/ou percebidas simultaneamente em várias

partes do mundo.

A exemplificação de como as mudanças ocorrem e em qual intensidade é dada por BRIDGES (1995,p.21): tudo se faz de maneira mais veloz como no caso da “simplificação do projeto de produtos e processos de trabalho”, assim como também com a terceirização que é uma deslocação do trabalho antes efetuado pela empresa (por exemplo, para uma rede de fornecedores representantes de outras empresas). Enfatizando a influência e o impacto que a tecnologia causa no trabalho, GONÇALVES e GOMES (1993) apresentam algumas variáveis que sofreram mudanças como: conteúdo, natureza das tarefas; skill requirements (habilidades requeridas); pressões e ritmos de trabalho; interação e quantidade de operários; localização e distribuição dos operários; horário e duração das jornadas de trabalho. A tecnologia, principalmente numa sociedade mais desenvolvida, não só elimina determinados empregos, como pode vir a elevar ocupações mais baixas para

de:line'>trabalhos mais qualificados, fazendo com que o trabalhador se torne polivalente. A força de trabalho esperada na atualidade é aquela que apresenta flexibilidade e versatilidade. O trabalhador tem que produzir não só quantidade mas também qualidade, executando mais de uma função, buscando sempre soluções para eventuais problemas, demonstrando

iniciativa e interagindo em grupo. Já não basta apenas a força física, há também necessidade de concentração e

atenção do intelecto. Para isso é indispensável a mão-de-obra escolarizada, o que ainda se mostra deficiente na sociedade brasileira.

É fato que, embora o número de pessoas sem trabalho seja mais elevado dentre os que têm menos escolaridade, os poucos cargos que estão sendo criados em substituição aos postos de trabalho eliminados, principalmente na indústria, possuem baixa qualidade e remuneração, sendo assumidos por pessoas com habilidades e conhecimento acima do necessário para o

cargo. Ao se falar em capacitação do trabalhador, a referência está diretamente relacionada ao fator ‘capital humano’, ou seja, à qualidade da mão-de-obra possuidora de boa formação escolar e profissional, apta e capaz ao trabalho. Segundo CATTANI (1997, p.38), “a valorização do capital humano significa a apropriação de qualidades sócio-psicológicas do

trabalhador, buscando o consenso e o espírito de lealdade à empresa, acenando com a possibilidade de participação autônoma e livre no processo produtivo,” embora o que se note é que o trabalhador ainda não possui praticamente nenhum poder de decisão insigne sobre o seu trabalho, ou seja, praticamente não tem autonomia e executa suas tarefas cumprindo normas e regras impostas.

4. DIVISÃO DO TRABALHO

A necessidade de aumento da produção, eficiência e diminuição de tempo de operação dos processos nas fábricas resultaram na divisão do trabalho. Os problemas decorrentes da divisão do trabalho se fizeram presentes já em fins do século XVIII, quando “os sistemas de subcontratação e produção domiciliar eram afligidos por problemas de irregularidade da produção, perdas de material em trânsito e desfalques, lentidão no fabrico, falta de uniformidade e rigor na

qualidade do produto.” (BRAVERMAN, 1987, p.64).

O sistema domiciliar não tinha uma maneira padronizada de transformação de matéria-prima em produto final, pois não havia quase nenhuma tecnologia e a divisão do trabalho era primária, onde o artesão ou tecelão fazia seu próprio tempo de

produção. Alguns exemplos de divisão elementar do trabalho são dados por BRAVERMAN (1987, p.85) como “as

oficinas romanas para artefatos de metal, poteria, curtume, vidraria, olaria e têxteis, assim como grandes estâncias agrícolas,” onde não existia nenhuma necessidade, pelo capitalista, de expansão do capital empregado e a divisão do trabalho, tanto para homens como para as mulheres, era feita de tal forma que cada um sabia fazer todo o seu trabalho, do início ao fim. A especialização era por tipo de produto e não por partes isoladas desse mesmo produto.

Somente a partir do momento em que o capitalista, ao lidar com o trabalho assalariado e com uma tecnologia mais avançada, sentiu necessidade de acumular capital é que se procurou uma nova forma de administração da mão-de-obra, fazendo-se uso da contabilidade e controles internos. Tanto o Taylorismo como o Fordismo surgiram em tempo favorecedor de condições para produção em massa, pois, em fins do século XIX e início do século XX, surgem as grandes

multinacionais dominando o mercado de várias regiões do mundo, havendo também a formação de trustes e

monopólios.

A divisão do trabalho em partes pormenores é “a divisão manufatureira do trabalho” (BRAVERMAN,

1987, p.72), ou seja, a fabricação de um só produto desmembrado em várias operações, passa a ser executada por vários trabalhadores, cada um manipulando uma operação específica e se especializando na mesma. Não só há a divisão do

trabalho em relação ao processo de fabricação, como há também a divisão social do trabalho, que é a que divide a sociedade em diferentes ocupações como a classe de médicos, de professores, de artesãos, de contadores, de advogados etc..

Tanto a divisão social do trabalho como a divisão parcelada do trabalho tendem a menosprezar a capacidade do ser humano como profissional, na medida em que diferentes ramos profissionais são discriminados pela própria sociedade e outros são

elitizados, e na medida em que a tarefa do trabalhador se unifica e faz com que este não use sua capacidade

criativa e se limite a poucas ou a apenas uma ação, da mesma forma como funcionam as máquinas.

Dessa forma, a crítica feita à teoria da máquina, tem seu início já com Taylor 2 , que tratava seus operários não como seres humanos pensantes, mas como objetos prontos a serem adestrados para executar suas 2 Frederick Winslow Taylor (1856 - 1915), americano, fundador da Administração Científica, formou-se em engenharia, em 1855, pelo Stevens

Institute. atividades com movimentos padronizados e em tempo certo. Desmembrar o trabalho humano em partes é para

o capitalista mais uma forma de aumento de produção, produtividade, eficiência e obtenção de maiores lucros,

pois ao executar uma só tarefa ou poucas tarefas em determinada função o trabalhador se especializa a ponto de executar sua função com maior velocidade, com mais eficiência e experiência adquirida com os movimentos repetitivos, produzindo mais e incorrendo em quase nenhum erro, desperdiçando, assim, menos matéria-prima. Esse processo de tarefas repetitivas

barateia a mão-de-obra, ou seja, a venda da força de trabalho por parte do laborioso, contribuindo para o aumento do lucro do capitalista.

5. AMBIENTE DE TRABALHO E QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO (QVT)

Sabe-se que, para que um trabalhador execute bem suas atividades, é imprescindível que a organização onde ele está inserido proporcione um ambiente de trabalho propício e favorável ao bem estar de todos os seus membros. O clima social é considerado como o próprio ambiente de trabalho, constituído de partes que formam um todo e que possuem características sócio-psicológicas, podendo-se observar, segundo PALÁCIOS (1995), “as atitudes dos empregados em relação as suas tarefas, sistemas de comunicação organizacionais e relações sociais entre colegas e supervisores.” Também formam o clima as crenças e valores individuais, a escolaridade, o sexo, o estado civil dos participantes etc..

Os primeiros estudos sobre a qualidade de vida no trabalho foram executados em 1950 pelo Tavistock Institute, em Londres, e em especial por Louis Davis e colaboradores. Porém, foi somente na década de 60 que as preocupações com QVT foram estimuladas. O conceito de QVT é dado por ALBUQUERQUE (1998) como sendo “ um conjunto de ações de uma

empresa que envolve diagnósticos e implantação de melhorias e inovações gerenciais, tecnológicas e estruturais, dentro e fora do ambiente de trabalho, visando propiciar condições plenas de desenvolvimento humano para e durante a realização

do trabalho.” Assim, a forma como se apresenta o ambiente de trabalho no que se refere ao local, temperatura, iluminação, barulho, disposição dos móveis etc., incutem na mente do trabalhador uma determinada imagem, podendo esta influência se apresentar positiva ou negativamente, também provocando mudanças no comportamento, que é o seu desempenho para executar determinado trabalho.

A ciência que trata do ambiente de trabalho é a Psicologia Ambiental, que tem como objetivo “estudar a influência dos fatores sócio-físicos do meio ambiente no comportamento do trabalhador e no resultado do seu desempenho” (ORNSTEIN apud PALÁCIOS, 1995, p.73). Assim, o desempenho do sujeito em determinadas tarefas depende de como este se sentirá

inserido na organização, abrangendo as variáveis liberdade, orientações, inovação, apoio, decoração, conforto, independência, acesso, privacidade, idade etc., e dependendo do aspecto – positivo ou negativo – o trabalhador terá uma boa ou uma má qualidade de vida no trabalho, pois se sentirá ou em equilíbrio, ou com incertezas, com conflitos e com a impressão de estar desamparado e sem apoio.

Uma variável de forte impacto no clima ambiental e aumento da produtividade, advinda de um melhor aproveitamento da força de trabalho do súdito, é o papel da gerência, pois, dependendo do relacionamento entre esta e seus subalternos, o desempenho destes poderá ser ou não de melhor qualidade. Não basta somente a empresa oferecer todos os recursos possíveis ao bom desempenho das atividades de seus membros, se existirem fatores de impacto psicológico negativo,

oriundos de uma falta de relacionamento interpessoal entre o trabalhador e o gestor, e dos próprios recursos materiais.

Condições de trabalho difíceis, segundo AUBERT (1993), ou que podem provocar “nervosismo intenso, insônia total, diminuição acentuada das possibilidades intelectuais, repercussão mais ou menos grave sobre o estado geral e o conjunto da personalidade,” são extremamente nocivas à saúde do trabalhador e esses sintomas são bem perceptíveis nas pessoas que

executam tarefas rotineiras, trabalham em ambiente insalubre ou além da capacidade de sua força física etc.. Um termo muito usual para designar a fadiga, não só dos seres humanos, como também em alguns casos dos animais, é o stress, que é quando há solicitações profissionais que “ultrapassem as capacidades reais, físicas ou psíquicas” (AUBERT, 1993, p.85) do

indivíduo. Este autor designa o stress profissional como sendo “o processo de perturbação engendrado no indivíduo pela mobilização excessiva de sua energia de adaptação para o enfrentamento das solicitações de seu meio ambiente profissional.”

Assim, para que o sujeito tenha uma boa saúde física e mental, deve haver um clima adequado propiciado pela organização, que por sua vez resultará numa boa qualidade de vida no trabalho, favorecendo a formação e manutenção de indivíduos mais criativos, serenos, responsáveis e com capacidade para demonstrar ou desenvolver novas habilidades, gerando

assim um melhor retorno para a própria entidade para a qual trabalha. É necessário, assim, que o capitalista invista mais em capital humano, único bem capaz de criar, pensar, tomar decisões e inovar no ambiente de trabalho.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O trabalho é, portanto, essencial para que o ser humano consiga concretizar seus sonhos e ideais, pois é por meio dele que este cria e constrói bens necessários à sua sobrevivência e à de outras pessoas, como também obtém recursos para adquirir outros bens, que por sua vez são produzidos por outras pessoas. Dessa forma, cada indivíduo exerce uma atividade diferenciada de outra, ou seja, um tipo de trabalho necessário não só à construção de meios imprescindíveis à sobrevivência da sociedade, como também outros bens de valor e objeto de satisfação do ego de uma parte da sociedade, mas que não são

necessários à sobrevivência da mesma. Com o passar dos anos, as formas de manipulação de matérias-primas necessárias ao fabrico de um produto/serviço foram sofrendo alterações, devido à evolução tecnológica das máquinas e equipamentos,

uso do computador e, junto com este, as facilidades de obter informações e de comunicação. Juntamente com o acréscimo de novos meios de produzir, mediante bens duráveis como os supra citados, houve o decréscimo da utilização da força de trabalho humana. Essa deterioração do trabalho humano afeta sua vida particular, de sua família, seu relacionamento com

outras pessoas, atitudes e crenças, pois o não-trabalho tira-lhe sua identidade, ou seja, tudo que diz respeito ao seu modo de viver e à rotina diária. E com o fracionamento de suas atividades em minúsculas operações, o sujeito, mesmo estando

trabalhando, vê mais uma forma de dissipação de seu trabalho e de sua capacidade física/mental, pois estará confinado a uma rotina de movimentos diários repetitivos que estão aquém de seu potencial, assim como também poderá estar exercendo uma função que lhe sujeite ao subemprego.

Uma outra influência que pode vir a modificar as atitudes do sujeito em relação ao seu trabalho é o clima organizacional aliado à qualidade de vida no trabalho, onde, dependendo do modo como se manifesta no ambiente de trabalho, pode resultar no pleno desenvolvimento do indivíduo e da organização, ou pode ocasionar atitudes negativas por parte do

indivíduo, por não estar satisfeito com as normas, regras e políticas organizacionais exercidas.

7. BIBLIOGRAFIA

ALBUQUERQUE, Lindolfo Galvão e FRANÇA, Ana Cristina Limongi. Estratégias de recursos humanos e gestão da qualidade de vida no trabalho: o stress e a expansão do conceito de qualidade total. Revista de Administração, São Paulo:

Universidade de São Paulo, Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, v. 33, n 2, p. 42, abr./jun.1998

AUBERT, Nicole. A neurose profissional. Revista de Administração de Empresas, São Paulo: Fundação Getúlio Vargas, v. 33, n 1, p. 85, jan./fev.1993.

BRAVERMAM, Harry. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. 3 ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.

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CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.

CATTANI, Antonio David at al. Trabalho e tecnologia: dicionário crítico. 2 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. 292 p.

FAUSTO, Boris. Trabalho urbano e conflito social. 4 ed. São Paulo: Difel, 1986. 283p.

GONÇALVES, José Ernesto Lima e GOMES, Cecília  de Almeida. A tecnologia e a realização do trabalho. Revista de Administração de Empresas, São Paulo: Fundação Getúlio Vargas, v. 33, n , p. 10-121, jan./fev. 1993.

GORZ, André. Crítica da divisão do trabalho. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

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RIFKIN, Jeremy. O fim dos empregos: O declínio inevitável dos níveis dos empregos e a redução da força global de trabalho. São Paulo: Makron Books, 1995.

RODRIGUES, Marcus Vinicius Carvalho. Qualidade de vida no trabalho: evolução e análise no nível gerencial. Fortaleza: UNIFOR, 1991.